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domingo, 26 de janeiro de 2014

A Claraboia

Era madrugada ainda? Onde estava o relógio? Ele não sabia responder a nenhuma das duas perguntas, sabia que estava deitado na cama, que fora acordado por batidas suaves na porta. Aquelas batidas furtivas que pareciam que seu autor não queria que ninguém mais ouvisse, senão quem estivesse naquele quarto.
Ainda confuso, ele se levantou da cama, vestiu uma camiseta e, aos tropeções, foi até a porta, girou a chave e abriu uma pequena fresta, por onde podia olhar quem estava do lado de fora. Depois que ele abriu a fresta foi que ele se deu conta do perigo que corria, a porta não tinha corrente de segurança, se do outro lado fosse um ladrão, quando essa pessoa se desse conta que a porta não estava mais trancada, um empurrão mais vigoroso a porta estaria aberta e ele indefeso.
Era um garoto que não deveria ter mais que seus 15 anos, vestido com o uniforme do hotel, camisa branca, colete e calças bordô, e aquele gorrinho ridículo, também bordô, na cabeça. Não trazia nenhuma bandeja consigo, nem poderia afinal ele não havia feito nenhum pedido de serviço de quarto. O garoto não era da equipe de limpeza, estes faziam seu trabalho quando os hóspedes estavam fora de seus quartos, como em qualquer hotel que ele já havia se hospedado.
Curioso, ele abriu mais a porta e deu passagem para que o rapaz entrasse. Este entrou, silencioso e aguardou que a porta fosse fechada, como ele apenas a encostou, o rapaz lhe fez um sinal para que ele passasse a chave na porta, trancando-a. Sem entender bem o por quê, ele chaveou a porta e se virou para ver seu estranho visitante.
Neste momento o rapaz foi até a janela, que estava fechada, olhou para fora através do vidro, como se estivesse procurando espiões, abaixou cuidadosamente a cortina metálica e voltou à sua posição inicial, junto ao gaveteiro. Só então falou:
_ Estou aqui para lhe abrir a claraboia e lhe passar as primeiras informações sobre sua missão.
Ele deu um pulo, sobressaltado, e respondeu:
_ Você está errado, só pode ter se confundido de quarto, eu estou aqui de férias, vim passar alguns dias aqui, sou apenas um vendedor de móveis e eletrodomésticos, não sou um policial ou espião, não sou eu quem você procura.
Sem se abalar, o garoto começou a esquadrinhar a parede sobre o gaveteiro, enquanto falava:
_ Sim, eu fui mandado para falar com você, seu nome não é Coult Vollstag, chamado por seus amigos por O Nórdico?
_ Sim, mas…
O garoto o interrompeu:
_ Então é você mesmo quem eu procuro. Fui mandado aqui para abrir a claraboia, lhe mostrar pela fresta a nossa realidade e explicar alguns detalhes da sua missão, depois virá outro portador que lhe entregará mais detalhes.
_ Espere, por que…
_ Nós não podemos ter todas as informações, é perigoso, se formos pegos pelos ‘claris’ toda a missão pode ser posta a perder.
_ ‘Claris’?
_ Sim, são alguns dos habitantes do lado de lá da fresta, eles sempre tentam abrir as passagens, para raptar os humanos, mas essas são outras informações, outro portador falará sobre isso.
Enquanto falava, o rapaz continuava a apalpar a parede, até que parecia ter encontrado o que procurava e então ele colocou a mão no bolso do colete e retirou uma espécie de chave, que encaixou na parede, no que parecia ser um buraco de fechadura. Mas como um buraco de fechadura? A parede era lisa, não havia nada ali. Mas aquela chave havia deslizado para dentro da parede sólida, sem qualquer esforço do rapaz, que a girou uma vez sobre seu eixo.
Subitamente, cerca de meio metro acima de onde estava a chave, um facho de luz se projetou daquela parede, cruzando o quarto, iluminado uma área retangular na parede oposta. A luz revelava uma janela, idêntica à janela que dava vista para a rua, mas era uma loucura, aquela parede fazia a divisão daquele quarto com o quarto ao lado, aquela janela não poderia existir.
O garoto soltou a chave e fez um sinal para que ele o acompanhasse até aquela nova janela. Quando estavam em pé, o garoto a abriu cuidadosamente e falou:
_ Fique calmo, esta é uma claraboia, por aqui apenas podemos ver algumas coisas do lado de lá da fresta, mas não podemos passar para lá, nem fazer o caminho contrário. Venha e olhe.
Ele não acreditava, pois do outro lado da parede existia um quarto tão sólido quanto aquele em que ele havia se hospedado, mas ao olhar pela janela, ele via um grande saguão, como se o hotel fosse bem diferente.
Era uma área ampla, maior que um campo de futebol, com paredes altas, mas tudo parecia deteriorado, a pintura estava manchada e descascada, parte do forro do teto pendia quebrado e estava cheio de teias de aranha, o chão tinha amontoados de terra e os móveis estavam quebrados e virados por toda parte, como se uma horda de vândalos tivesse passado por ali.
Na parede que daria para frente do hotel, as janelas estavam com os vidros sujos e quebrados, pelos buracos entrava uma luminosidade difusa, esta ajudava a deixar definida a dimensão daquele local, mas também o deixava com menos vontade de saber mais a respeito daquilo tudo.
O garoto falou:
_ Não se preocupe, o lado de lá da fresta não é assim em toda parte, existem lugares iguais a este, limpos e arrumados, acontece que este hotel tem o tecido de realidade mais fino, aqui é mais fácil abrir portais, então os ‘claris’ se reúnem próximos, expulsam os moradores comum e depredam o lugar. O lado de lá da fresta é como se fosse outra dimensão, uma dimensão paralela que se sobrepõem a esta, não como espelho, mas muito próxima, geralmente, onde há construções aqui, do outro lado também há quase sempre semelhantes, aqui é um hotel, lá também, mas as construções são diferentes, como você pode ver, mas há lugares onde em uma realidade você tem uma rua larga e na outra existe um prédio. Por esse motivo não é em todo lugar que se podem abrir os portais, entende? Os portais só podem ser abertos onde existe a coincidência completa, se aqui está construído um hotel de cinco andares, com uma área de 350 metros de frente por 500 metros de fundo, do outro lado tem que ter um hotel semelhante, mesmo que as configurações internas sejam diferentes, a área e a altura têm que ser iguais, de alguma forma isso afina a barreira entre as dimensões e facilita a abertura dos portais.
Ele não acreditava em seus próprios olhos, mas reuniu coragem e perguntou:
_ E qual o nome dessa dimensão? Como vocês chamam esse lugar?
_ Por enquanto chame de “o outro lado do portal”, claro que esse lugar tem nome, mas esse fato tem pouca importância neste momento, depois, antes de você começar sua missão, você terá essa e outras informações.
_ Mas…
Um movimento furtivo no saguão o fez se calar. Parecia que alguns vultos andavam do outro lado do salão, se reunindo, mas a pouca claridade que as janelas traziam não davam clareza ao lugar. Ele olhou atentamente, pareciam homens, não muito diferentes dele, por causa da distância, da claridade e do local de onde ele olhava, ele não poderia dizer se eram altos ou baixos, mas pareciam homens comuns. Ele olhou para o garoto, que esclareceu:
_ São alguns ‘claris’, fique tranquilo, eles não podem ver a claraboia, nem mesmo nos ouvir. Eles devem estar sentindo que o tecido está sensível, devem estar adivinhando que em breve um portal será aberto, isso os deixa agitados, nós não conseguimos entender como eles pressentem os portais. Mas compreenda bem, eles não são monstros, não têm força sobrenatural, não conseguem voar, são homens, eles sofreram pequenas mutações que os deixam menos civilizados, mas podem ser confrontados e vencidos, não tenha medo, você receberá mais informações sobre as fraquezas que eles possuem.
_ Eu ainda não entendo.
_ Outro portador lhe explicará mais. Agora se sente, vou falar sobre os portais.
O garoto lhe apontou a cadeira, fechou a janela e voltou à outra parede, de onde retirou a chave, o facho de luz apagou e a janela sumiu, então se virou para ele e falou:
_ Já mostrei a claraboia e como é o lado de lá do portal, tive sorte que alguns ‘claris’ deram a graça de aparecer, assim você já pode vê-los, agora vou explicar sobre os portais.
_ Os portais são passagens entre as dimensões, só podemos abri-los onde a barreira é mais fina, isso só acontece onde há construções similares nas duas dimensões, mesmo que internamente elas sejam diferentes, por fora tem que ter a mesma altura e área.
_ Este hotel tem um irmão gêmeo do outro lado, mesma altura e área, só que por dentro é diferente, isso não impede de ser uma área de portal.
_ Por causa dos ‘claris’, o portal não fica aberto por tempo indeterminado, ele será aberto, você passará para a outra dimensão, então o portal se fechará, quando a missão estiver terminada, ou por qualquer outro motivo, você deverá voltar ao hotel, para reabrir o portal. Procure sempre fixar um ponto de referência, um pilar, uma janela, qualquer coisa, o portal sempre abrirá na mesma coordenada, mas ele é quase imperceptível, então você só o achará pelos pontos de referência.
_ Existem outros portais que podem ser usados, mas isso só se houver uma emergência, se você for visto em um lugar onde não estava, minutos antes, terá dificuldades de explicar sua presença ali, isso poderá trazer problemas, então evite usar outros portais.
_ Nem todos os habitantes do lado de lá são ‘claris’, você provavelmente receberá apoio de vários, além do agente que trabalhará ao seu lado. Lembre-se, onde há concentração de ‘claris’ há a possibilidade de abertura de um portal.
_ Eu preciso ir, logo você receberá mais informações de outro portador, depois entrará em um portal para cumprir sua missão. Boa sorte.

sábado, 28 de setembro de 2013

O Convite

Ele estava sentado em sua mesa de trabalho, quando Josh chegou e lhe falou:
 
_A empresa vai reformular o periódico dos funcionários, você não quer participar escrevendo uma coluna?
 
Ele olhou intrigado e respondeu:
 
_Como assim? Eu nem sou jornalista, só escrevo alguns textos no blog, por diversão.
 
_Mas o periódico não é profissional, é dos funcionários – Josh insistiu – e a sua coluna seria para você escrever o que você quiser.
 
_Não sei, tem gente mais capacitada, que tem curso universitário, que sabe escrever sem erros de português. – ele falou descrente.
 
Josh abanou a cabeça, negativamente.
 
_Não, você não está entendendo, não queremos uma pessoa para fazer textos profissionais e técnicos, queremos você, que vai escrever com seus sentimentos, vai mostrar o seu ponto de vista das coisas, do Mundo. O convite é para você nos mostrar seus pensamentos. Você sabe que eu conheço seu blog, seus textos, sabe que é isso que eu quero mostrar para todos.
 
E continuou.
 
_O periódico vai ser quinzenal, você nem terá pressão de ter que produzir um texto por semana ou mesmo dois ou três, como se trabalhasse num jornal de verdade. Eu sei que você gosta de escrever nos finais de semana para o blog, escrever um texto a mais, a cada quinze dias, é menos complicado. Outra coisa, depois que passar os quinze dias, quando sair outra edição, você poderá publicar o texto da sua coluna no blog, afinal o texto será seu mesmo.
 
_Não é tão fácil assim, você que não escreve acha que a gente chega na frente do computador olha para a tela e sai escrevendo – ele rebateu – muitas vezes eu fico olhando para a tela vazia, sem saber o que escrever, mesmo sendo um blog amador, o trabalho de criação é difícil.
 
_Tá certo, eu não sei como é, mas o convite, melhor, a intimação está feita, não aceitamos um não como resposta. Volto a falar contigo na semana que vem, para dizer quando sairá o primeiro número, até lá, vai pensando na primeira coluna. – Josh falou, se levantou da cadeira e foi embora antes que ele pudesse lhe responder.

domingo, 15 de setembro de 2013

O sobrevivente

Ele seguia sem rumo naquela cidade fantasma, ruas e ruas desertas, nenhuma coisa viva no alcance dos olhos, mas ele sentia que não estava só, sentia sobre si olhos desconhecidos que o acompanhavam desde que havia chegado naquele conjunto de concreto e metal.

Ainda tentava entender o que havia acontecido, anos já se passavam desde que o Mundo havia mudado, desde a hecatombe, quando as leis da física deixaram de existir, desde que as formas de energia se esgotaram ou sumiram, desde que os tecnomagos surgiram e mudaram a vida de todos.

Ele havia perdido família e amigos, mas continuava seu percurso, em algum lugar haveria de achar alguns sobreviventes, gente normal que, possivelmente, também estariam brigando para sobreviver nesse mundo insano, aonde a magia se mesclava com o que sobrara da tecnologia. Ele já havia visto e enfrentado seres bizarros, pobres criaturas transformadas em máquinas, os zumbots (mistura de zumbis e robôs), tanto humanoides como dos mais variados animais.

Só sobrevivera graças ao treinamento militar que tivera no fim da adolescência, quando passou como recruta do exército por um período de seis meses em um quartel. Na época ele odiava as ordens dos sargentos, detestava os cabos que agiam como carrascos, mas agora agradecia por ter aprendido com eles a atirar, a se virar em ambientes inóspitos, enfim, aprendido a sobreviver.

Ele aprendeu a carregar consigo o necessário, quanto menos peso levasse mais fácil era escapar, se escondendo em lugares escuros e apertados. Assim, trajava uma camisa de mangas compridas, branca, um colete cheio de bolsos, caqui, uma calça preta de tecido resistente e botas pretas, que chegavam perto dos joelhos. Em uma das botas carregava uma faca de caça, daquelas parecidas com a que o Rambo usava, na cintura trazia duas armas, um revólver calibre .38 e uma pistola .380, as munições e carregadores eram levados nos bolsos do colete. Nesses bolsos ele também levava um canivete e uma lanterna, alguns curativos e medicamentos, coisa para primeiros socorros. Nas mãos carregava um rifle semiautomático .38. Para comer, somente algumas barras de cereais e chocolates, fora isso, quando achava em alguma casa ou mercados e restaurantes, fazia alguma refeição mais substancial, levando consigo o máximo de alimento não perecível que conseguisse.

Ele continuava andando com cuidado pelas ruas daquela cidade, olhando para cada sombra, procurando não fazer barulho, mas o solado de borracha de suas botas parecia ser de metal, aquele local era silencioso como um cemitério, seus passos ecoavam nas paredes dos prédios como uma bateria de escola de samba. Ele continuava com a impressão de ser vigiado.

Quando ele chegou à área central da cidade avistou algumas quadras a frente um parque, ele pensou que seria bom se ele cruzasse aquele caminho, pois se alguém realmente o estivesse seguindo, teria que sair para local aberto, e assim perder o anonimato. Ele acelerou seus passos, quase correndo, para cobrir a distância rapidamente e não dar chances para que o pegassem naquelas ruas cercadas de edifícios altos.

Assim que atravessou os portais de ferro que davam passagem aos passeios largos, cercados de grama e arbustos dos dois lados, ele respirou mais aliviado e reduziu a velocidade, olhando com calma ao redor. Ele tinha se esquecido da marcha do tempo, não se lembrava de qual dia da semana ou mês estava, mas pelo cenário, com o gramado amarelado e as árvores quase sem folhas, se lembrou de que estavam no final do outono e em breve o inverno chegaria. Ele precisava achar um lugar para passar os meses frios. Depois das mudanças, os invernos eram realmente frios, com neve caindo em muitos lugares onde a temperatura média era superior a 25°C o ano todo. Dessa vez ele estaria sozinho, pois neste último ano perdeu seu companheiro de viagem, como ele sentia falta dele, seu fiel cachorro que sucumbiu à idade avançada.

Ele estava quase no meio do parque quando ouviu um barulho metálico assustador, algo que ele nunca tinha ouvido não se parecia com zumbots, era mais metálico, parecia maior e mais ameaçador. Ele olhou para uma área de piqueniques, ao lado de um lago e viu algo que lhe tirou o fôlego, um carro se movia como um inseto, com seis patas metálicas, um inseto de mais de 600 quilos de puro metal, que se dirigia vagarosamente em sua direção. Ele chegou a levantar o rifle e mirar no vidro do para-brisas, mas desistiu de puxar o gatilho, iria desperdiçar uma bala e não faria nem cócegas no monstro mecânico.

Ele olhou ao redor e procurou uma rota de fuga segura, escolhendo seguir pela sua direita, começou a correr, mas isso pareceu despertar de vez o monstro, que acelerou os passos e se pôs a persegui-lo.

Quando estava quase sendo alcançado, ele passou por um par de árvores de troncos grossos e ouviu um barulho de cordas se esticando. Ele não parou, nem quando ouviu um barulho alto de ferro se chocando contra o chão, achou um banco alguns metros a sua frente e se escondeu atrás, somente depois disso olhou de onde vinha o barulho.

Ele se surpreendeu ao ver um velho e dois jovens ao lado do monte de ferro retorcido que era o monstro até alguns minutos atrás, eles não se pareciam nem se trajavam como tecnomagos, logo deveriam ser sobreviventes, além disso, eles haviam o ajudado a sair dessa perseguição.

Os três pareciam examinar o interior do carro, como se procurassem sobreviventes ou alguma coisa que pudessem usar, mas logo desistiram, olharam para ele e andaram em sua direção. O velho se apresentou como Walter, um ex-jogador de rugby, e disse que os jovens eram seus sobrinhos, Wallace e Javier, que haviam sobrevivido à hecatombe, mas perdido os pais, desde então os três sobreviviam naquela cidade, sempre buscando um jeito de destruir as máquinas que circulavam por lá. Ele, por sua vez, contou sua história, sobre sua peregrinação pelas terras desoladas e sua busca por sobreviventes.

O tempo passava e o entardecer já avançava, quando Walter o convidou para irem a seu refúgio, pois à noite outras máquinas e zumbots vagavam pela cidade, atacando e levando prisioneiros para o quartel-general do seu criador.


domingo, 8 de setembro de 2013

A viagem

Tchu, tchu, tchu...

Ele tinha a impressão que se saísse do vagão e empurrasse o comboio aquela viagem seria mais rápida, aquele trem parecia ter saído do início do século passado, tão lento ele se locomovia. Sua tentação era ir até à cabine e perguntar o que o condutor queria para acelerar aquela viagem. Aquela vagarosidade era irritante, e ficava pior ainda quando eles começavam a subir um morro.

Ele tinha compromisso em dois dias, numa cidade que não conhecia, mas sua noiva insistira em se casar junto à família, não só os pais, que foram à capital quando foi oficializado o noivado, mas todos, avós, tios, padrinhos, cachorro, gato e papagaio, enfim, todos aqueles apêndices que veem junto. Disseram para ele que na cidade havia um antigo namorado de infância dela, e que esse rapaz seria capaz de subornar o padre para oficializar o casamento dele, caso o ‘noivo da capital’ não chegasse a tempo. Ele tinha dúvidas sérias se isso era verdade, mas não pagaria para ver. Isso era outro motivo que aquela lerdeza o irritava.

Quando eles se conheceram, os amigos acharam aquele romance muito estranho, já que ela não era tão atraente quanto as outras namoradas, essa beleza mais discreta era compensada pela simpatia e alegria. Depois, quando souberam que o pai era fazendeiro e tinha uma grande fazenda de pecuária, ficou aquela troça, que era ‘golpe do baú’, coisa que ele garantia que não era verdade.

Enquanto ele divagava sobre esse passado, andava pelos corredores dos vagões, a ansiedade o dominava. Ele não entendia porque ir de trem, quando de carro seria mais rápido, mas ela havia insistido, não quis dizer o motivo, apenas queria que fosse dessa forma e ele aquiesceu. Era uma boa oportunidade para ele observar os passageiros, gente da mais variada etnia e procedência, era uma confusão de sotaques que ele nunca teria imaginado.

Tchu, tchu, tchu...

O que mais o desesperava era as paradas, em qualquer cidadezinha, onde havia uma estação, era feita uma parada, mesmo que ninguém subisse ou descesse. O pior era quando alguém subia, pois lá vinha o encarregado de verificar as passagens. Se todos comprassem as passagens no guichê, na estação, seria fácil, mas alguns insistiam em subir e pagar a passagem no vagão, como se desconfiasse do vendedor, ou sabe se lá por quê. Mas esses eram o que faziam mais confusão, conferindo o destino, o dinheiro do pagamento, reclamando que o troco estava errado, um caos.

Aquele trem estava de brincadeira, não andava, a impressão é que se ele fosse andando chegaria mais rápido. Nisso ele se lembrou da viagem ao exterior, daqueles trens balas, que cobriam centenas de quilômetros em menos de uma hora, ah, se aquele trem fosse assim.

Para se distrair, ele tentou rememorar o dia do noivado, o nervosismo de conhecer os pais da noiva, a preocupação se ele seria ‘aprovado’ e aceito. Qual a decepção ao ver que os dois, apesar do dinheiro, eram simplórios. O pai fez várias piadinhas grosseiras e machistas, a mãe era preocupadíssima com a honra da filha, foi difícil falar algo do mesmo nível, mas ele não queria parecer esnobe, então falou o que achava que os dois esperariam que ele falasse.

A preocupação fez com que ele ficasse com vontade de ir ao banheiro, nervosismo? Quem sabe. Novamente ele começou a atravessar os corredores do vagão, ouvindo a balburdia que os passageiros faziam, foi assim até chegar ao banheiro, ou melhor, à fila do banheiro. Aquilo se assemelhava a um desafio maior do que aguentar a lerdeza do trem, mas ele precisava entrar no banheiro, teria que ter paciência.

Aquela viagem o estava enlouquecendo. Chegou a olhar no celular o telefone de um amigo que havia se formado em direito, pensou em ligar-lhe, estava disposto a achar uma brecha na legislação e processar alguém, o maquinista, o cobrador, a empresa, até mesmo o presidente desta, aquela viagem estava fazendo-lhe muito mal.

Tchu, tchu, tchu...

(Baseado na música Maria Fumaça de Kleiton e Kledir)


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O facão



Ele estava absorto em pensamentos, totalmente distraído, parecia que o mundo estava em outro plano ou dimensão. Pensando agora, nem ele mesmo se lembra dos pensamentos daquele momento.

O fato é que era um dia ensolarado, quente para aquele inverno, algo pouco comum. Ele estava no coletivo, indo para o trabalho, totalmente desligado, quando o barulho metálico chamou-lhe a atenção. Ele saiu do transe, mas não entendeu o que era.

Foi somente na segunda vez que ouviu o barulho que ele compreendeu. Era um facão, daqueles usados por jardineiros para cortar uma ou outra planta maior, ou cortar algum tufo de mato que tenha se instalado em algum canto de jardim. Deveria ter uns 50 ou 60 cm, cabo preto, parecia normal.

Era a segunda vez que o homem, que estava em pé no corredor do coletivo, havia derrubado o facão. Esse homem não tinha uma fisionomia que chamasse a atenção, parecia ser daqueles cidadãos comuns, que devem ter uma vida chata, trabalhando de sol a sol, sem nada interessante fora do trabalho para fazer, ele estava trajando calça jeans e uma jaqueta jeans, algo curioso para aquele tempo que fazia. “Cada louco com sua mania.” pensou ele.

Em mais uma ou duas paradas obrigatórias ele desceria, portanto tratou de apanhar suas coisas, arruma-las e se preparar para descer, deixando de lado aquela imagem curiosa. Logo ele estava fora do ônibus, andando algumas quadras até o trabalho, o dia seria como qualquer outro, pelo menos ele achava assim.

Quando chegou em casa à noite, ele ligou a televisão, estava começando o noticiário local. O rosto do apresentador parecia assustado, mas não dava para entender o que era falado, ele pegou o controle remoto e aumentou o volume do som, foi então que ele compreendeu, foi ficando pálido, quase transparente, ele sentia que seu estômago dava voltas, suas pernas começaram a fraquejar, ele quase caiu no chão. O susto foi virando pânico, que virou terror. Ele reconheceu a face naquela fotografia 3x4, era ele, o homem do facão, a notícia era que ele havia surtado (não sabiam o motivo) havia ferido alguns passageiros daquele coletivo, antes que a Polícia chegasse e tentasse resgatar os reféns.

A situação se complicou, dois reféns ficaram feridos e o homem do facão foi morto, ninguém sabia o nome dele, não tinha documentos, nada, apenas aquele facão e na carteira aquela foto. Quem era e o motivo daquilo tudo, ninguém sabia.

Ele foi à cozinha, procurar um copo de água com açúcar para beber, tentar acalmar os nervos, afinal, ele praticamente nasceu de novo, por uma questão de minutos ele não foi refém naquele coletivo e, quem sabe, uma vítima desse mundo cão.


domingo, 7 de julho de 2013

A mata

Ele havia dito que aquilo era uma péssima ideia, mas ninguém o ouviu. Pelo contrário, falaram que seria legal, uma viagem àquele vale, conhecer a natureza, lembraram que era uma das últimas reservas de mata nativa daquela região.

Ele tinha argumentos, falou que o lugar não era um parque público, a área era privada, pertencia a alguém, e esse alguém poderia não gostar de visitantes. Mas riram dele, falaram que era muita paranoia, que ninguém iria se importar com um pequeno grupo de jovens que iriam apenas acampar por um fim de semana prolongado, além do que, eles não iriam prejudicar o local, não jogariam lixo, não cortariam as árvores, a fogueira seria bem controlada para não gerar um incêndio.

Depois de muito argumentar, falar, ele acabou cedendo. Não queria ficar longe dela no final de semana, se ela queria ir nessa roubada, então ele iria também, mesmo que contrariado.

Assim começaram os preparativos, afinal eles tinham apenas 3 dias para a viagem. Empréstimos de barracas, colchões e outros apetrechos de camping que não havia em quantidade suficiente para o grupo, vaquinha para comprar mantimentos e bebidas. Parecia que tudo andava rápido. Mas estava faltando algo, que ele fora encarregado de obter, um mapa detalhado da região.

Depois de rodar livrarias e revistarias, não achou nada, parecia que ninguém tinha conseguido fazer um levantamento do local, pelo menos ninguém nos últimos 30 ou 40 anos. Um senhor que aparentava ter uns 60 anos lhe falou que talvez ele encontrasse algumas anotações em jornais antigos, que ele poderia encontrar na biblioteca municipal.

Assim foi ele, a biblioteca parecia um depósito, poucas pessoas visitavam o local, o bibliotecário, já em idade avançada se limitava a ficar no balcão junto à portaria, não andava pelos corredores havia muito tempo, nem mesmo havia funcionários para fazer a limpeza, o pó e o mofo reinavam pelo local, bastava andar alguns metros para o interior da biblioteca e parecia que se estava fazendo uma viagem ao passado remoto.

Ele olhou primeiro a máquina antiga de microfilmes, ficou horas sentado em frente a ela e não encontrou nada. Resignado voltou ao balcão e indagou pelas edições encadernadas dos antigos periódicos locais. Ouviu atentamente a orientação e se aprofundou pelos corredores, até chegar ao local indicado.

Mais horas perdidas em pesquisas, muitos espirros devido ao excesso de pó acumulado, quando ele já estava para desistir acabou encontrando algo que ajudaria. Uma espécie de croqui da região, não era um mapa detalhado, mas com certeza era da reserva florestal, muitos símbolos estavam impressos, setas, marcação de ‘x’, mas o mofo, a umidade e as traças haviam feito um bom serviço nas páginas amareladas, ele não conseguiu ler nada, ou quase nada, naquelas folhas. Parece que havia acontecido algo sério ali, como o periódico era do começo do século anterior, não havia fotos, era apenas o texto borrado e aquele desenho.

Ele pegou o volume com cuidado e levou ao balcão, pedindo para o bibliotecário fazer uma cópia na velha xerox que existia ali. O homem o olhou com uma das sobrancelhas levantadas, como se quisesse adverti-lo sobre algo, mas apenas fungou, pegou o encadernado e fez a cópia, cobrando a taxa habitual. Quando ele foi pegar o volume para devolvê-lo à prateleira, o funcionário fez um sinal mostrando o relógio, já estava na hora de fechar, no dia seguinte a coletânea voltaria a seu lugar.

Naquele último dia antes da viagem, ele passou muito tempo debruçado sobre a cópia do desenho, tentando entender os borrões que o acompanhavam e, também, tentando decorar os detalhes sobre aquela mata. Pareceu que o dia correu rápido, quando ele se deu conta, já era noite, ele comeu algo e foi deitar mais cedo, pois todos queriam sair durante a madrugada para chegar com o raiar do dia à mata, para poderem fazer o acampamento logo e sair para explorar a região.


A viagem foi rápida, menos de duas horas e os carros já estavam parando no acostamento, a cerca de 150 metros do limite das árvores. A decisão que tomaram foi a de sair da estrada, levando os carros até próximo das árvores, onde iriam montar as barracas, assim eles poderiam usar os faróis dos carros caso houvesse alguma necessidade, então eles estavam percorrendo o local para achar uma passagem por onde os carros pudessem ser guiados, sem correrem o risco de os pneus furarem.

Ele aproveitou para olhar a mata, ficou impressionado, parecia que ela era sobrenatural, pois, mesmo com o sol da manhã brilhando, ela tinha muitas sombras. Mesmo assim, ele deu de ombros e voltou sua atenção para a estrada, procurando um terreno firme.

Algum tempo depois as barracas estavam armadas, a divisão foi simples, as duas barracas maiores seriam ocupadas pelos solteiros, uma pelos homens e outra pelas mulheres, as quatro menores seriam dos casais, como ele ainda não formava um casal, ficou na barraca maior. A esperança era que numa próxima vez uma das menores lhe coubesse, bastaria ela ser menos indecisa.

Como o tempo não parava, e eles levaram mais de uma hora para armar acampamento, decidiram que comeriam alguma coisa e depois iriam explorar a mata, alguns dos rapazes foram buscar lenha, galhos secos e palha para arrumar a fogueira que seria acesa à noite, outros foram ver se achavam alguma fonte d’água ou riacho nas proximidades, para pegar água para cozinhar. As garotas ficaram para terminar de arrumar o interior das barracas, ele era o chef da turma, também ficou e foi começar a cortar cebola e outros temperos, além de terminar de arrumar o fogão de campanha que tinha trazido, ele esperava que os três botijões de gás de 1 quilo fossem o suficiente para aqueles dias, afinal, a noite dava para assar pedaços de carne na fogueira, ele poderia economizar o gás.

Pouco depois todos chegaram, um grupo havia trazido a água e o outro a lenha. Enquanto ele arrumava os baldes, separava a água para ferver e a que seria usada para lavar a louça, os demais começavam a limpar o terreno onde a fogueira ficaria, depois disso, começaram a empilhar os galhos e colocar a palha e grama seca nos vãos, para facilitar o fogo, a noite ela seria um grande espetáculo.


Pela posição do sol, a tarde já avançava por volta de 2 da tarde, tudo estava pronto no acampamento, o grupo todo trocou de roupa, vestindo calçados confortáveis e roupas bem coloridas, estavam prontos para andar e conhecer a natureza local.

Como a mata era fechada, eles tiveram alguma dificuldade em encontrar um local para adentrar nela, andaram algum tempo, até que eles acharam um local onde as árvores eram mais espaçadas, por ali eles seguiram. Ainda assim o espaço era apertado, obrigando-os a andar em fila indiana.

Alguns metros depois de entrarem sob as árvores, foi necessário ligar as lanternas, as copas das árvores eram tão fechadas que a luz do sol não conseguia iluminar o local, parecia que eles haviam entrado numa região perdida e esquecida pelo tempo, eles viam apenas os vultos dos troncos, dos quais eles conseguiam desviar, mas os galhos, arbustos e outras vegetações rasteiras eram riscos presentes de tombos e escoriações.

Eles seguiram algum tempo, tateando o escuro, com o auxílio das lanternas, até que algumas pessoas começaram a reclamar do cansaço, da sede (os cantis já estavam secos) e que já era hora de voltarem, nesse momento eles pararam e se deram conta que não haviam trazido consigo uma bússola, nem haviam deixado marcações pelo caminho, eles estavam perdidos.

A tensão foi aumentando, o medo era palpável, choramingos já eram presença entre eles, sem falar nas acusações. Alguém lembrou que os musgos cresciam em árvores sempre na parte sul dos troncos, e eles haviam montado o acampamento numa região a sudoeste da mata. Todos respiraram aliviados e foram olhar com as lanternas os troncos, mas a mata era tão fechada no local que havia musgo quase que rodeando todo o tronco, não importava qual árvore eles olhassem, a situação se repetia.

Sem perceber e em desespero, o grupo foi se afastando, se separando, até que todos estavam isolados, sozinhos naquela imensidão verde. O que eles haviam descoberto era que a vegetação era ótima como isolante acústico, por mais que eles gritassem, não conseguiam ouvir nada, nem mesmo os animais.

Ele não sabia o que fazer, então decidiu que andaria em linha reta (se é que isso fosse possível), em algum momento ele sairia na borda da mata, então ficaria fácil chamar socorro e voltar buscar os outros. Aquela parecia ser a opção mais sóbria, ele esperava que os outros também pensassem assim, senão o que era uma diversão viraria uma tragédia.

Enquanto caminhava, ele se lembrou do mapa, da cópia que havia feito, naquele momento achou que deveria ter feito uma cópia para cada um, que poderia ajudar, mas depois se convenceu que ninguém poderia imaginar que eles se perderiam na mata, procurou se tranquilizar, e seguiu em frente.

Aos poucos ele sentiu que as árvores começaram a se espaçar entre si, pareciam indicar que ele estava chegando na borda da mata, o que deixou-o mais animado, fazendo com que andasse mais rápido. Mas ele estava enganado, em sua decisão de andar em linha reta, ele pegou uma direção que só fazia com que ele mergulhasse ainda mais no centro daquela mata, e ele havia chegado numa clareira onde havia um casebre de paredes escuras, que parecia estar abandonado. Cautelosamente ele foi se aproximando e reparando na construção, que já não parecia tão abandonada assim, as janelas tinham vidros inteiros e cortinas, um pneu estava junto à parede, havia sinais claros de que alguém morava ali. Quando estava a poucos passos da escada que dava acesso à entrada, ele estava concentrado, olhando firme para a porta, então apenas sentiu uma pancada na cabeça e o mundo se apagou numa escuridão intensa.

sábado, 15 de junho de 2013

A tocaia

Ele olhou para fora, através do para-brisas, o vidro estava embaçado por causa de sua respiração, a chuva caia lá fora, piorando a já precária visão da rua que ele tinha.

Fazia meses que o tempo não ficava desse jeito, uma chuva forte, constante e, ao mesmo tempo, tranquila, sem vento, sem relâmpagos, apenas água, em grande quantidade, como se fosse para lavar toda a cidade daquela podridão, daquele lixo que se acumulava.

As pessoas, saindo do trabalho, procuravam se abrigar, abrindo guarda-chuvas, se esgueirando de marquise em marquise, tentando ficarem secas. Graças aos casacos impermeáveis, não era quase possível identificar se os caminhantes eram homens ou mulheres, apenas observando mais atentamente, o tipo de calçado, um ou outro apetrecho que carregavam a tiracolo para diferencia-los. Muitos estavam apressados, queriam chegar logo aos seus carros ou ao ponto de ônibus, para irem, sabe se lá, para suas casas, ou outro lugar onde fossem bem recebidos, quem sabe. Alguns pareciam não ter destino certo, estes acabavam achando um lugar mais ou menos seco, onde se abrigavam da chuva e apenas olhavam o movimento, assim como ele fazia de dentro do carro.

Sim, mas ele não estava ali para desperdiçar tempo, ele estava apenas cumprindo seu ofício, bastava localizar seu alvo e segui-lo, discretamente, anotar seus movimentos, o seu itinerário, se andava só ou acompanhado. Maldito trabalho, investigar pessoas, vasculhar suas vidas, descobrir seus mais bem guardados segredos. Ele não gostava daquilo, mas ainda assim precisava sobreviver e nada mais restava a ele, aquilo era o que melhor ele fazia, ser discreto, seguir pessoas sem ser visto, e ele ainda tinha alguns conhecidos em lugares chaves que o ajudavam, faziam um favor a ele, sempre em troca de outro favor, lógico, a vida sempre foi assim, você recebe alguma coisa cedendo algo como pagamento.

Na caixa de som o solo rodopiante de Dizzy Gilespie soava ao vazio, ele já não prestava mais atenção em nada, procurava seu alvo entre as pessoas que passavam pelo carro, elas continuavam a ir e vir, ele não poderia se dar ao luxo de perder aquela pessoa, isso já havia acontecido noutra noite, o que atrasava o seu trabalho e, consequentemente, seu pagamento e aquele dinheiro tinha que vir logo, ele estava precisando pagar algumas contas logo, senão as coisas ficariam péssimas.

As luzes amarelas dos postes públicos só pioravam a visão através do vidro, se continuasse assim e seu alvo demorasse mais, provavelmente ele teria que sair da segurança de seu carro e se abrigar da chuva sob alguma marquise, não era uma boa ideia, mas pelo menos sua visão seria melhor. Era um dilema, afinal, assim que visse seu objetivo, ele teria que voltar rápido para o carro para não perdê-lo, teria que fazer isso bem discretamente para não perder o véu de invisibilidade que seria primordial para o sucesso de sua investigação. Mas, se ele continuasse no carro, os vidros embaçados começariam a chamar demais a atenção das pessoas, seria um risco um policial aborda-lo, apesar de ele sempre ter um álibi, o risco de seu alvo escapar por seus dedos era grande. E agora, o que fazer?

A chuva caia, as pessoas continuavam a ir e vir apressadas e ele aguardava.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A Tempestade

Ainda era uma e meia da tarde, mas não parecia, a luz caiu vertiginosamente e em questão de minutos tudo ficar mais escuro que a noite. Era esperado, pois a Guarda Costeira havia dado o alerta de tempestade por volta das nove horas, avisando aos pescadores e barqueiros para que eles recolhessem suas embarcações no píer.

As escolas tiveram suas aulas canceladas, os funcionários públicos dispensados, até mesmo os dois supermercados da cidade fecharam suas portas e mandaram todos os empregados para casa. Enquanto ele ia para o farol, perto do meio-dia, parecia estar andando numa cidade fantasma, todos os moradores haviam obedecido aos conselhos de segurança e estavam trancados em casa, aqueles que podiam sair da cidade para lugares mais altos provavelmente fizeram-no, mas todos deveriam estar rezando para que a borrasca fosse menor do que se anunciava.

Aquele farol era antigo, deveria ter mais de quarenta anos, talvez mais, já fora importante, naqueles anos em que a aviação era pouco desenvolvida e as viagens para a Europa eram realizadas de transatlânticos. Ele não entendia a importância do farol, afinal ali não tinha nenhum porto de grande porte, parecia ser um elefante branco naquela comunidade pesqueira. A verdade é que ele não havia se preocupado em conhecer a história do lugar e conhecer os motivos que no passado fizeram alguma autoridade construir aquele farol, talvez tenha sido apenas uma forma de desviar dinheiro, quem sabe houvesse mesmo alguma importância estratégica, mas aquilo era passado. Hoje, para ele, o importante era que o farol lhe garantia sua sobrevivência, era o seu emprego há quase dois anos e ele não iria deixar de assumir seu posto por causa de uma chuva. Ele ficaria lá por vinte e quatro horas, manteria a luz potente do farol ligada a todo custo e depois voltaria para sua folga de setenta e duas horas.

Normalmente o trabalho era relativamente fácil, ele ligava a lâmpada especial por volta de seis e meia ou sete horas, quando o sol descia no horizonte, e desligava ao amanhecer, por volta de cinco e quarenta e cinco do dia seguinte. O restante do tempo era gasto com a manutenção e limpeza da torre, raras vezes ele tinha que proceder a troca da lâmpada, quando esta atingia seu tempo útil de vida, outro trabalho era manter o gerador a diesel em condições de uso. Ele não se lembrava de quando teve que acionar o motor diesel para garantir que a lâmpada continuar ligada, isso acontecia quando o fornecimento de energia elétrica era cortado, mas fazia tempo que isso não acontecia.

Restava-lhe bastante tempo para que ele fizesse algo que gostava muito, ler. Já lera boa parte da obra de Shakespeare, livros mais recentes de bons autores, outros clássicos da literatura. Como ele tinha que ficar acordado a noite toda, para evitar algum incidente com o farol, a cada plantão se munia de dois ou três livros antes de seguir para o trabalho. Pelo menos oito ou nove horas do seu turno eram tranquilas o suficiente para que ele pudesse se sentar e ler.

Sempre que o sono começava a esgota-lo, principalmente no meio da madrugada, ele largava a edição sobre a mesa e fazia uma ronda completa no farol, andava por toda a torre, subindo e descendo as escadas, olhava o pátio e também a sala de iluminação. Toda essa movimentação ajudava a despertar, ele também bebia um café forte e voltava a ler.

Mas isso era rotina, hoje a situação se apresentava diferente.

Os livros ficaram em casa, as atenções ao gerador e à lâmpada estavam redobradas, pois as chances de o fornecimento de eletricidade ser cortado eram grandes. Ele olhou preocupado para as nuvens carregadas e subiu a escadaria em caracol para ligar a lâmpada do farol, depois ele se instalaria na antessala do motor, munido com uma lanterna e um lampião, para se guiar caso tudo ficasse escuro e ele precisasse ligar o gerador.

Ele subiu até a cúpula e olhou pelas vidraças, as gotas começavam a engrossar e se avolumar, a tempestade começava a mostrar sua carranca. Aquela seria uma longa jornada.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Expedição

_ Sim, senhor. O senhor pode duvidar de mim, pode achar que por eu ser um homem do interior, um homem que não estudou e um homem que é simples, acabe inventando histórias para os turistas.

_ Não é bem assim, eu acredito que você conte verdades, mas essa história… não sei.

_ É a mais pura verdade, o senhor pode acreditar. Foi assim mesmo que aconteceu.

“…

Naquele tempo a tecnologia ainda não estava tão desenvolvida como hoje, viajar demorava dias, também não tinha esses telefones, essas coisas modernas, era tudo mais difícil, o rádio ficava mudo, as câmeras fotográficas eram com filme, tinha que revelar depois para ver se tudo tinha ficado bem no foco, era tudo diferente, mas era tudo muito mais simples.

Eu lembro quando aqueles estrangeiros chegaram (acho que eram americanos), dois doutores de universidade, se diziam arqueólogos e vieram com uma comitiva de uns 20 ou 25 homens, cheios de equipamentos, tinha tudo o que era de moderno na época, aparelhos de raios-X para vasculhar o solo, escutas (acho que chamavam de sonares), pás escavadeiras, enfim, estavam preparados para cavar um buraco do tamanho de uma caverna. Eles tinham tudo, até apoio do governo local para entrar mato adentro e montar acampamento perto daquela montanha, eles chamavam de sitio arqueológico, para achar tesouros antigos.

Mas aquele lugar era sagrado para os nativos, não como os cemitérios que a gente ouve falar que os Apaches tinham no Oeste dos Estados Unidos, não, ali era um lugar de morte, mas não de descanso eterno, era um lugar de sacrifícios. Esse tipo de lugar não é sagrado, eles falam assim, mas estão errados, esse tipo de lugar é amaldiçoado, ali só existe desgraça, morte, destruição. Eu era jovem na época, mas minha avó havia me contado histórias terríveis sobre aquele lugar. Reunindo toda a coragem que minha juventude permitia, além de algum atrevimento, eu procurei aquele que era o chefe da expedição e o avisei, falei tudo, contei sobre os sacrifícios, sobre os fantasmas, sobre a maldição, mas ele somente fez uma coisa, ele riu de mim, não aquele riso condescendente, ele riu com escárnio, desacreditando tudo o que eu falei, disse que eram crendices idiotas.

Apesar disso, ele me falou que gostara de mim, gostara do jeito atrevido com que eu havia ido procura-lo, que isso poderia me valer um emprego, se eu estivesse disposto a me esquecer das crendices e aceitasse ir com eles, como um guia, leva-los ao local onde aconteciam os sacrifícios. Ele acreditava que pelo fato de eu conhecer tantas histórias sobre a região, eu poderia leva-los até o local onde eles queriam ir. Na hora eu não disse nada, pedi um dia para pensar. Na verdade eu estava com medo, muito medo, precisava falar com minha avó, ouvir o que ela me contaria, o que ela me aconselharia. Se ela dissesse para eu não ir, eu recusaria, mesmo que me oferecessem meu peso em ouro.


Ela me olhou profundamente, ficou em silêncio, apenas mastigando aquelas folhas de coca, parecia olhar além de mim, como se visse meu fantasma, ficou assim por minutos, talvez horas, não sei, eu parado aflito, apenas suando, não me atrevia a limpar o suor da minha testa, não queria desconcentra-la. Ficamos assim por um bom tempo até que ela cuspiu aquelas folhas e a baba produzida por elas na fogueira, o clarão que fez parecia que ela tinha jogado pó de fogo, isso fez com que eu pulasse cerca de um metro para trás, não estava esperando e me assustei muito.

Ela espremeu os olhos, sorriu mostrando os dentes enegrecidos pela idade, depois me falou: “filho, você tem sua vida, sua obrigação na terra e não pode fugir disso. Você deve enfrentar seus desafios, mesmo que eles signifiquem que sua vida será encurtada. Seu caminho é tortuoso, com grandes nuvens negras a frente e a única pessoa que pode iluminar essa estrada é você. Se você escolher ficar, seguirá uma rota, se escolher ir, seguirá outra rota, mas ambas levarão ao mesmo lugar, a diferença está no tempo da caminhada.”

Depois disso, ela começou a cantar uma ladainha, dançar e andar ao meu redor, como se tivesse me benzendo e pedindo aos espíritos toda proteção que eu precisaria para a jornada, mas não me disse nada a respeito disso. Depois, ela me abraçou e falou: “Seja forte, mas lembre-se de que a prudência sempre é a melhor conselheira.”


Mesmo achando que estava fazendo as coisas erradas, no dia seguinte eu estava no saguão do hotel, esperando os arqueólogos, pronto para guia-los ao local dos sacrifícios. Novamente adverti ao chefe da expedição sobre os perigos que encontraríamos lá, novamente ele desdenhou. Dei de ombros e subi no jipe que lideraria o cotejo, afinal eu era o guia, tinha que estar na linha de frente, indicar os atalhos para chegarmos lá.

Saímos 9 da manhã, eu queria ir mais cedo para chegar lá ainda com o sol acima do horizonte, mas eles queriam tomar o café da manhã com calma, isso significaria que chegaríamos com os últimos raios do sol antes dele se deitar, teríamos que fazer uma fogueira logo para, usando sua claridade, armar o acampamento. Isso me preocupava.

Mesmo demorada, achei que foi um bom sinal o fato de nada nos atrasar, nenhum pneu furou, nenhum carro teve problemas mecânicos, nada, a parada para a refeição do meio-dia foi rápida, ninguém cozinhou, apenas comemos sanduíches que haviam sido preparados ainda no hotel. Nessa hora os arqueólogos conversaram entre si e depois comigo, querendo saber quanto tempo faltava, se haveria algum lugar indicado para instalar o acampamento. Eu lhes falei que chegaríamos ao cair da noite e que não me lembrava bem do lugar, mas que achava que poderíamos montar as tendas num platô que fica cerca de 100 metros de onde eles queriam escavar. Eles ficaram satisfeitos com as informações, mandaram todos subirem de novo nos jipes e seguimos viagem.

Como eu calculara, chegamos ao local no começo da noite, tivemos que ligar os faróis dos jipes e fazer uma fogueira para ter claridade suficiente para montar as tendas e para o cozinheiro fazer uma sopa para o jantar. Depois que montamos tudo, precariamente, comemos e fomos dormir, qualquer coisa, remontaríamos o acampamento no dia seguinte com o sol nos sorrindo e, depois do desjejum, começaríamos as escavações.


Tudo amanheceu bem. Algumas nuvens indicavam que teríamos chuva, o que esperar de uma floresta tropical em plena época das águas? Mas naquele momento o sol predominava, aquecendo o dia e despertando a tudo e a todos. Depois de uma breve inspeção em todas as barracas, chegamos à conclusão que não seria necessário nenhum reparo, pelo menos todas pareciam ter sido bem montadas. O café estava pronto, a alegria estava em todas as partes do acampamento, primeiro dia de trabalho, com poucas exceções de nativos que se juntaram à expedição na minha aldeia, todos já se conheciam de outros trabalhos, eles brincavam entre si, algumas vezes faziam brincadeira conosco, fosse por maldade para tirar sarro, fosse para nos enturmar, o fato é que apesar de todas as diferenças culturais, eles procuravam nos tratar como iguais.

Após todos comermos, todos permaneceram sentados em seus lugares e o chefe da expedição começou a falar, um blábláblá sobre a importância do trabalho que seria realizado, sobre as riquezas históricas que acharíamos, sobre estarmos fazendo história. Aquilo me entediava, mas parecia deixar os outros empolgados. Curioso o dom da palavra, não acha?


Tudo transcorreu bem até por volta de 2 da tarde, o primeiro fosso cavado já contava com mais de 2 metros de profundidade, quatro operários escavavam lá, com cuidado, pois havia suspeita de que em breve eles já encontrariam os primeiros artefatos, eles tinham parado com as máquinas e os quatro haviam descido por uma escada, com pequenas pás e pincéis, para remover as camadas de terra de forma mais delicada, não queriam quebrar os objetos de cerâmica que poderiam estar ali.

Foi quando tudo começou. Nem sei o que foi primeiro, parece que foi simultâneo, não sei. Um grito enlouquecedor veio da floresta ao nosso redor, parecia vir de um ser fantasmagórico e monstruoso, do alto das árvores macacos começaram a jogar fezes e galhos em nós, num ataque que parecia coordenado, e o pior, do fundo do fosso uma fumaça quase líquida começou a minar do piso, parecia água, mas ao mesmo tempo era etérea, não dava para definir nem mesmo a cor dela. Quando o primeiro trabalhador levou a mão até ela, para saber o que era, começou a uivar de dor, de desespero, ele ergueu o braço, sua mão já não estava mais ali, apenas ossos corroídos, nada mais do que isso.

Na pressa de sair do fosso, os outros três se precipitaram para a escada de cordas, tentando subir ao mesmo tempo, por mais nova que a escada fosse, ela não resistiu e arrebentou, os gritos daqueles homens até hoje me assombram, os coitados caíram dentro daquela fumaça. O coitado que havia perdido a mão, agora estava tentando fugir escalando a parede de terra, mas sem uma das mãos o trabalho era ingrato, o desespero atingia todo o acampamento, ninguém se preocupou em ajuda-lo, todos estavam tentando evitar o ataque que os macacos lançavam, agora mais furioso ainda. Não sei se alguém tropeçou naquela mesa ou se alguma coisa fez com que ela caísse, e ela caiu dentro do fosso, sobre o coitado sem mão, isso fez com que ele também encontrasse seu fim naquela fumaça… desculpe, fica difícil descrever aquelas imagens, aqueles quatro homens reduzidos a esqueleto por uma substância desconhecida, sobrenatural, não é fácil.

Enquanto isso, o restante de nós, bem, nós estávamos ainda correndo e desviando das coisas que os macacos jogavam em nós, por Deus, de onde eles tiravam tudo aquilo, eram fezes, galhos, frutas, pedras e sei lá mais o quê. O acampamento estava um pandemônio, a confusão era tal que ninguém deu atenção aos gritos que vinham da floresta, cada vez mais perto.

De repente, parecia que o arqueólogo chefe havia descoberto um lugar a salvo, onde os macacos não estavam atacando, ele chamava todos para lá, em poucos minutos mais da metade dos homens já estavam reunidos lá, foi quando eu tive o bom senso de pensar em não ir para lá, não sei por que, mas algo me falou que se todos nós ficássemos juntos o fim seria inevitável. Eu consegui me arrastar até debaixo de um dos jipes, onde fiquei relativamente protegido. De lá eu assisti ao mais assustador e perturbador show de horrores que se possa imaginar.

Logo depois de eu me refugiar sob o carro, quase todos os homens restantes estavam junto com o arqueólogo, naquele lugar, era uma fenda na parede da montanha, parecia que ela ficava mais larga na medida em que mais homens corriam para lá. Nesse momento os macacos começaram a guinchar e fugir, abandonando o ataque, foi tudo muito rápido. Antes que qualquer um pudesse sair de onde estava, surgiu do meio da mata, quebrando árvores e arrasando tudo, uma imensa cobra, parecia que ela gritava, era o som que havíamos escutado, o mais aterrador, além de comprida e grande, parecendo três troncos grossos de árvores juntos, ela tinha pés, quatro pés, o que fazia com que ela fosse mais rápida ainda. Quando menos esperavam, os homens naquela fenda estavam cercados, sem ter para onde fugir. Eles ainda reagiram bravamente, batiam na cabeça daquele monstro com as pás, com pedaços de madeira, mas nada fazia aquele monstro parar, nem mesmo quando o arqueólogo sacou um revólver e disparou seis vezes a queima-roupa contra a cabeça dela. Foi horrível, ela se banqueteou com todos eles, uns 15 ou 20 homens, não sei, todos foram engolidos, alguns inteiros, outros quebrados ao meio pelas mordidas daquelas mandíbulas, a cena era dantesca.

Não me orgulho em dizer que minhas calças estavam imprestáveis e exalando um fedor medonho, aquilo me preocupava, pois aquele mau cheiro poderia atrair o bicho quando ele terminasse o banquete, sei lá, poderia ser considerado como sobremesa. Mas por algum motivo qualquer, quando terminou aquela matança, a cobra lentamente, como se estivesse entrando em estado de letargia, se encaminhou de volta para a floresta, dessa vez fazendo menos estragos, sem derrubar árvores e sem gritar. Ela havia me ignorado, eu havia sido poupado para contar ao mundo sobre aquela tragédia.

…”

_ E foi assim que aconteceu, sem uma vírgula a mais ou a menos. Eu aconselharia o senhor a não continuar com seus planos. Ninguém sabe o que poderia acontecer se alguém voltasse àquele lugar maldito. O senhor está levando muitas vidas para o desastre total, não faça isso.

_ Essa história aconteceu há quanto tempo? 30, 40 anos? Ninguém nunca mais ouviu falar desse monstro, será que ele já não morreu?

_ E o senhor sabe quanto tempo aquele bicho leva para fazer a digestão daquela refeição? E se ele apenas estiver hibernando, esperando o momento de acordar e comer novamente? Quem garante que ele tenha voltado para a profundeza dos infernos de onde saiu? Meu conselho é para o senhor desistir e ir fazer buracos em outro lugar, ali tudo cheira a morte.

_ Mas o museu está pagando muito bem por essa expedição.

_ Bom, eu o avisei.