Faz 20 anos que Chris Carter nos apresentava dois
personagens que seriam imortais para os fãs de ficção científica, a cética
Scully e o pio Mulder, agentes do FBI que trabalhavam no setor chamado Arquivo
X.
Sim, num dia 10 de setembro, no já longínquo ano de 1993,
estreava nos EUA, no canal Fox, a série que moveria fãs ao redor do mundo,
trazendo todas as semanas mistérios intrigantes que, quase sempre, envolviam o
sobrenatural e extraterrestres.
Não me lembro da data em que a série estreou no Brasil, no
canal da Rede Record (tempos em que eu não tinha tv por assinatura), mas
raríssimas vezes eu deixei de ver o episódio que era apresentado nas noites de
sextas-feiras. Sempre a química entre os agentes e os mistérios investigados
faziam com que eu ficasse quase que hipnotizado na frente da tela, aguardando o
que aconteceria, fosse O Assassino Imortal (Eugene Toons), fosse o Gólen, ou,
talvez, um enxame de insetos misteriosos no meio de uma floresta tropical.
Fica até difícil falar, tantas as histórias que foram
narradas, o fato é que Mulder e Scully têm um lugar de honra na galeria de
heróis improváveis da ficção científica.
Ele tinha a impressão que se saísse do vagão e empurrasse o
comboio aquela viagem seria mais rápida, aquele trem parecia ter saído do
início do século passado, tão lento ele se locomovia. Sua tentação era ir até à cabine e perguntar o que o
condutor queria para acelerar aquela viagem. Aquela vagarosidade era irritante,
e ficava pior ainda quando eles começavam a subir um morro.
Ele tinha compromisso em dois dias, numa cidade que não
conhecia, mas sua noiva insistira em se casar junto à família, não só os pais,
que foram à capital quando foi oficializado o noivado, mas todos, avós, tios,
padrinhos, cachorro, gato e papagaio, enfim, todos aqueles apêndices que veem
junto. Disseram para ele que na cidade havia um antigo namorado de
infância dela, e que esse rapaz seria capaz de subornar o padre para
oficializar o casamento dele, caso o ‘noivo da capital’ não chegasse a tempo.
Ele tinha dúvidas sérias se isso era verdade, mas não pagaria para ver. Isso
era outro motivo que aquela lerdeza o irritava.
Quando eles se conheceram, os amigos acharam aquele romance
muito estranho, já que ela não era tão atraente quanto as outras namoradas,
essa beleza mais discreta era compensada pela simpatia e alegria. Depois,
quando souberam que o pai era fazendeiro e tinha uma grande fazenda de
pecuária, ficou aquela troça, que era ‘golpe do baú’, coisa que ele garantia
que não era verdade.
Enquanto ele divagava sobre esse passado, andava pelos
corredores dos vagões, a ansiedade o dominava. Ele não entendia porque ir de
trem, quando de carro seria mais rápido, mas ela havia insistido, não quis
dizer o motivo, apenas queria que fosse dessa forma e ele aquiesceu. Era uma boa
oportunidade para ele observar os passageiros, gente da mais variada etnia e
procedência, era uma confusão de sotaques que ele nunca teria imaginado.
Tchu, tchu, tchu...
O que mais o desesperava era as paradas, em qualquer
cidadezinha, onde havia uma estação, era feita uma parada, mesmo que ninguém
subisse ou descesse. O pior era quando alguém subia, pois lá vinha o
encarregado de verificar as passagens. Se todos comprassem as passagens no
guichê, na estação, seria fácil, mas alguns insistiam em subir e pagar a
passagem no vagão, como se desconfiasse do vendedor, ou sabe se lá por quê. Mas
esses eram o que faziam mais confusão, conferindo o destino, o dinheiro do
pagamento, reclamando que o troco estava errado, um caos.
Aquele trem estava de brincadeira, não andava, a impressão é
que se ele fosse andando chegaria mais rápido. Nisso ele se lembrou da viagem
ao exterior, daqueles trens balas, que cobriam centenas de quilômetros em menos
de uma hora, ah, se aquele trem fosse assim.
Para se distrair, ele tentou rememorar o dia do noivado, o
nervosismo de conhecer os pais da noiva, a preocupação se ele seria ‘aprovado’
e aceito. Qual a decepção ao ver que os dois, apesar do dinheiro, eram
simplórios. O pai fez várias piadinhas grosseiras e machistas, a mãe era
preocupadíssima com a honra da filha, foi difícil falar algo do mesmo nível,
mas ele não queria parecer esnobe, então falou o que achava que os dois
esperariam que ele falasse.
A preocupação fez com que ele ficasse com vontade de ir ao
banheiro, nervosismo? Quem sabe. Novamente ele começou a atravessar os
corredores do vagão, ouvindo a balburdia que os passageiros faziam, foi assim
até chegar ao banheiro, ou melhor, à fila do banheiro. Aquilo se assemelhava a
um desafio maior do que aguentar a lerdeza do trem, mas ele precisava entrar no
banheiro, teria que ter paciência.
Aquela viagem o estava enlouquecendo. Chegou a olhar no
celular o telefone de um amigo que havia se formado em direito, pensou em ligar-lhe,
estava disposto a achar uma brecha na legislação e processar alguém, o
maquinista, o cobrador, a empresa, até mesmo o presidente desta, aquela viagem
estava fazendo-lhe muito mal.
Tchu, tchu, tchu...
(Baseado na música Maria Fumaça de Kleiton e Kledir)
Logo no prefácio, o próprio Maurício de Sousa classifica
Magnetar como uma aventura solitária e introspectiva, já Laços é uma fábula sobre a amizade.
Bem, seguindo essa linha, Pavor Espaciar é uma comédia ao melhor estilo dos
Reis do Riso.
Isso é fácil de explicar, o estilo do autor desta Graphic
Novel, Gustavo Duarte, é mais visual que falado (ou escrito), as imagens são
ricas, ágeis e contam bem a história, sem a necessidade de grandes textos
explicativos, lembrando a agilidade dos clássicos do cinema mudo. Além disso, apesar
de a temática ser um contato com extraterrestres, o que se sobrepõem é a veia
cômica, lembrando as deliciosas matines de Charles Chaplin, Harold Lloyd e
Buster Keaton.
Todos os encantos do caipira Chico Bento estão presentes,
assim como de seu primo, Zé Lelé, toda aquela forma simples do morador do
interior do Brasil, o matuto que todos conhecemos bem. Aqui eles têm como
coadjuvantes o porquinho Torresmo e a galinha Giselda, que são fundamentais à
trama.
Além da riqueza do roteiro, a arte é um verdadeiro Easter
Egg, cheio de surpresas e pegadinhas, como uma arma espacial cultuada por fãs
de ficção científica, um astro pop (que já foi chamado de ET em outra mídia), além
de muitas referências a mistérios e lendas que envolvem os discos voadores.
Uma leitura deliciosa, daquelas que garantem muitas risadas,
que vale cada minuto, e que venha a próxima Graphic.
Um garoto de óculos, cabelos desgrenhados, solitário,
entrando na adolescência, que de repente descobre que pode ser um mago, o maior
mago de seu tempo, para isso ele começa a percorrer as histórias imemoriais da
magia, colhendo conhecimentos que poderão ser úteis um dia. Não, não estou
falando de Harry Potter, mas de Tim (Timothy) Hunter, o personagem principal de
Os Livros da Magia, do brilhante Neil Gaiman.
Há muita discussão e controvérsia se Harry Potter é ou não é
plágio do personagem que Gaiman criou para a DC Comics. Inegavelmente a
descrição acima pode se encaixar nos dois personagens, Hunter também tem como
bichinho de estimação uma coruja, se bem que Ioiô, como o nome diz, foi
transmutada de um brinquedo de mesmo nome, ao contrário da coruja branca de
Potter.
J. K. Rowling pode nunca ter lido ou sequer ouvido falar do
personagem dos quadrinhos, mas entre ambos há muitas semelhanças, porém estas
param por aí. Potter teve Hogwarts, Hermione, Ronny, Dumbledore, Snape e outros
em sua vida, preparando-o por anos para seu grande desafio, já Hunter foi orientado
por quatro membros da Brigada dos Encapotados, John Constantine, Mister Io,
Vingador Fantasma e Doutor Oculto, que o levam para uma jornada de dias em
mundos e universos paralelos, levando-o aos princípios dos tempos, passando
pelo presente e por terras fantásticas, até o fim de tudo.
Uma jornada que mostra todos (ou quase todos) os personagens
místicos da Editora, nomes como Etrigan, Zatanna, Morpheus e os Perpétuos,
Senhor Destino e outros. Todos contribuem direta ou indiretamente para se ter
uma visão ampla do que é a magia nesse universo, “a sombra que existe no meio
da realidade”.
Normalmente o que vemos é um livro ter sua história adaptada
e levada para as telas do cinema, não importa se o livro tem muitas páginas ou
menos de cem, se é de língua inglesa, portuguesa ou chinesa, se é best-seller ou
cult, quase sempre um diretor ou produtor torna-se fã da publicação e resolve
comprar os direitos para transformá-lo em filme.
Este é um caso que a obra segue o sentido contrário, ela sai
das telas e vai para as páginas (240 para ser exato) de um livro leve e fácil
de ser lido. O escritor James Kahn consegue transpor para as páginas a
agilidade e alegria que o filme conta, conseguindo reconstruir a aventura dos
garotos que moravam em Docas Goon e, num sonho desesperado, saem em busca de um
lendário tesouro de piratas que estaria escondido nos subterrâneos de sua
cidade.
O escritor se apoia não só no filme, mas encaixa cenas
descartadas (uma versão do diretor seria interessante) e também utiliza o
próprio roteiro do filme, que trás detalhes das personalidades dos personagens,
além de uma leve e picante passagem que não foi gravada (para a ingenuidade da
época, a cena seria exagerada).
Uma aventura para ler e, se você viveu nos loucos anos 1980,
reviver sua adolescência, muito bem representada pelos Goonies, não é, Willie
Caolho?